Arautos d'El-Rei | “Sou Eu, Jesus. Venho visitar-te…”
685
post-template-default,single,single-post,postid-685,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,vss_responsive_adv,qode-content-sidebar-responsive,qode-theme-ver-10.1.1,wpb-js-composer js-comp-ver-6.0.5,vc_responsive
Altar-mor

“Sou Eu, Jesus. Venho visitar-te…”

Um conto de Natal

Parece medieval este conto que hoje apresentamos aos leitores. Parece de uma época passada em que havia simplicidade nas almas e em que a Luz de Cristo ainda brilhava em todas as camadas da sociedade.

Dir-se-ia que não poderia acontecer na época moderna, em que os homens vivem afastados da Fé, contaminados pelo materialismo, pelo ateísmo e por toda a espécie de vícios. Trata-se, no entanto, de uma história verdadeira e relativamente recente, conforme afirma o autor, que aliás a testemunhou.

Vejamos então a história:

Paul está sentado nas pedras frias da escadaria da Igreja de São Tiago, numa pequena cidade da Baviera (Alemanha). Como sempre, encontra-se ali a pedir esmola.
Antes das missas, abre a porta da igreja para os fiéis e sorri-lhes amavelmente, deixando ver uma boca já praticamente sem dentes.
Paul tem 50 anos e faz parte daqueles mendigos sem tecto que lutam para sobreviver. O seu corpo está consumido não somente pelo frio e pela fome, mas também pelo excesso de álcool.
Parece muito mais velho do que é na realidade. Se ao menos tivesse forças para lutar contra o vício, pensa ele continuamente… E faz o firme propósito de parar de beber.
Mas quando a noite chega e com ela a lembrança da sua família, perdida num trágico acidente, ele não resiste e recorre ao consolo da garrafa. O álcool amortece então o vazio na sua alma, pelo menos por algumas escassas horas.


A garrafa de vinho é sua fiel companheira e a cirrose e outras doenças vão gradualmente consumindo o seu corpo. A cor da sua face levanta suspeitas preocupantes.
Na opinião dos habitantes do bairro, Paul tornou-se parte integrante da escadaria da igreja, passando a ser visto mais ou menos como se fosse uma estátua. É nessa perspectiva que o tratam, pois a maior parte das pessoas nem lhe presta atenção. E as que ainda se dão conta dele perguntam-se até quando resistirá.
O pároco e a ajudante da paróquia ainda se preocupam com ele. Mas quem lhe dá mais atenção é sobretudo a Irmã Petra, uma missionária jovem que vem todos os dias visitá-lo.
Ele alegra-se com a visita da freira, que sempre lhe traz alguma coisa para comer. Porém nem mesmo esta religiosa consegue tirá-lo da rua. Nem sequer na casa paroquial ele entra, seja para comer, seja para se lavar.

* * *

Todas as noites, quando escurece e ninguém mais o vê, Paul esgueira-se  para dentro da igreja vazia e de luzes apagadas. Senta-se então no primeiro banco, bem diante do Tabernáculo.
E aí fica em silêncio, quase sem se mover, durante cerca de uma hora. Depois levanta-se e sai arrastando os pés pelo corredor do centro, passa pela porta principal e desaparece na escuridão da noite.
Para onde? Ninguém o sabe. No dia seguinte, porém, lá está ele sentado novamente na escadaria, diante do portal da igreja.
E assim passavam os dias. Certa vez a Irmã Petra perguntou-lhe: “Paul, vejo que entra na igreja todas as noites. O que faz aí a horas tão tardias? Por acaso vai rezar?”
— “Não rezo”, respondeu Paul. “Como poderia eu rezar? Já não rezo desde o tempo em que era menino e em que ia às aulas de religião. Esqueci todas as orações. Não me lembro de mais nenhuma. O que faço na igreja? É muito simples. Vou até o Tabernáculo, onde Jesus está sozinho no Seu pequeno sacrário, e digo-Lhe: Jesus, sou eu, o Paul. Vim visitar-Vos. E fico um pouquinho, para que ao menos alguém Lhe faça companhia”.

Na manhã do dia de Natal, o lugar que Paul ocupou durante anos a fio está vazio. Preocupada, a Irmã Petra começa logo a procurá-lo. E acaba por encontrá-lo no hospital que fica perto da igreja.
Nas primeiras horas da madrugada alguns passantes o tinham-no encontrado sem sentidos debaixo de uma ponte e chamado a ambulância. Paul está agora no leito dos doentes.
Ao vê-lo a missionária tem um choque. Paul está ligado a vários tubos e a sua respiração é fraca. A sua face tem a cor amarelada, típica dos moribundos.

— “A senhora é parente dele?”, perguntou o médico arrancando a Irmã Petra dos seus pensamentos.
— “Não, mas vou cuidar dele”, respondeu ela espontaneamente.
— “Infelizmente não há muito a fazer, ele está a morrer”, disse o médico meneando a cabeça e saindo.

A Irmã Petra senta-se perto de Paul, toma a sua mão e reza longamente. Depois, tristonha, retorna à casa paroquial.
No dia seguinte volta novamente ao Hospital, já preparada para receber a má notícia da morte de Paul…

— “Mas.. o que é isto?!”
Ela não crê no que os seus olhos vêem. Paul está perfeitamente sentado na sua cama, com a barba feita. De olhos bem abertos e vivos, ele vê com alegria a freira que se aproxima. Uma expressão de inefável alegria cintila na sua face radiante.
Petra mal acredita no que está a ver e pensa: “Será este realmente o homem que ainda ontem lutava contra a morte?”
— “Paul, é incrível o que se passou. Está praticamente ressuscitado, está irreconhecível. O que lhe aconteceu?”
— “Ontem à noite, pouco depois que a irmã se foi embora, eu não estava nada bem” — explicou Paul . “Porém, de repente, vi alguém de pé junto à minha cama. Belo, indescritivelmente esplendoroso… Não pode imaginar! Ele sorriu para mim e disse: Paul, sou eu, Jesus. Venho visitar-te.”

* * *

A partir desse dia Paul não tomou nem mais uma gota de álcool.
A Irmã Petra conseguiu-lhe um quartinho na casa paroquial e um emprego de jardineiro. A sua vida transformou-se inteiramente desde aquele Natal.
Paul encontrou novos amigos na paróquia. E, sempre que pode, ajuda a Irmã Petra nos seus afazeres. Uma coisa, porém, permaneceu a mesma:
Quando anoitece, Paul esgueira-se na Igreja, senta-se diante do Tabernáculo e diz: “Jesus, sou eu, o Paul. Vim visitar-Vos”.

(Autor: Jürgen Wetzel. Tradução de Renato Murta de Vasconcelos. Conto publicado em Wöchentliche Depesche Christlicher Nachrichten, RU 50/2010, apud “Catolicismo”)



Facebook

Este site utiliza cookies para permitir uma melhor experiência por parte do utilizador. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Mais informação

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close