Arautos d'El-Rei | Poder local e tradição
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Feira São Mateus

Poder local e tradição

O Poder Local tem as suas raízes, e raízes profundas, na Tradição.
Esta palavra Tradição, ao ser pronunciada, põe em desequilíbrio os nervos dos incondicionais adoradores do Progresso. Mas, se estes progressistas fossem capazes de raciocinar um pouco com a cabeça fria, acabariam por considerar que não há Progresso sem Tradição, nem há tradição que não traga consigo progresso.
Só se progride mudando qualquer coisas e quando se muda, essa qualquer coisa mudada fica logo marcada com o sinal da tradição.

“A Tradição é o Progresso hereditário”  – A Feira de São Mateus, realizada anualmente em Viseu, é uma das mais antigas e tradicionais de Portugal, sendo conhecida por esse nome desde o Século XVI, mas com origens que remontam provavelmente ao reinado de D. Sancho I (c. 1188). Ao longo dos séculos tem-se modernizado sempre, constituindo um dos eventos comerciais e turísticos mais importantes do Centro e Norte do País.

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Vasquez de Mella (1) ensinou que o primeiro invento representou o primeiro progresso. E este invento, ao transmitir-se a novas gerações, constituiu a primeira tradição que se iniciava nesse campo.
Os povos constituem não um todo simultâneo, mas um todo sucessivo. O progresso alcançado por cada um só poderá tornar-se progresso chamado social, se a tradição o acolher no seu seio.
A tradição é o progresso hereditário, o que quer dizer que o progresso depende essencialmente da utilização de conhecimentos conduzidos pela tradição. Como a própria Vida, a Tradição elabora-se sem cessar.

O Progresso, como aditivo que em geral é, dependente sempre de uma transmissão recebida e que só por intermédio da tradição se torna realmente, possível. Mesmo quando o progresso exerce uma acção subtractiva, não a exerce senão para robustecer a tradição depurando-a dos seus elementos ou enfermos.
Se é certo que não há ciência sem experiência, também não há Pátria sem Tradição. Sem tradição, cada geração encontrar-se-ia no mesmo ponto que primeira. Nós todos estaríamos sempre na Idade da Pedra.

Por mais que os néscios clamem que a tradição é um sentimento relacionado com o culto dos mortos, o que é certo é que, como esclareceu Álvaro d ‘Ors, são os actualmente vivos e não os antepassados, os protagonistas da Tradição.  A continuidade da tradição é a garantia da identidade das comunidades (2).
Sangue e terra são, como foi dito páginas atrás, caminhos pelos quais o ser humano recebeu a tradição dos antepassados, o conhecimento da maneira peculiar de viver, de onde sente derivar a sua condição humana.
“Os povos — disse Elias Tejada (3) — têm a consciência de que existiram instituições e regras
de Direito das quais ainda resta uma acolhedora tepidez, exaltando-se de cinzas quase amortecidas.”
E Bruner (4) reforça este ponto de vista afirmando que “as colectividades organizadas possuem um espírito que é fruto e obra, capital de inúmeras gerações, síntese de progresso alcançado à custa de sacrifícios e resultado de abnegações e heroísmos sem conta. É graças ao sentimento tradicional que a alma das Freguesias e dos Municípios persiste enquanto vão caindo Repúblicas e Totalitarismo, Monarquias e Ditaduras, Impérios e Democracias, porque aqueles organismos tradicionais são autenticamente naturais.”

A Tradição vitaliza, aperfeiçoa, fecunda o Corpo Social e ajuda a mantê-lo dentro da sua ordem natural.
Não é contemplação, é movimento e continuidade. Por isso Taine pôde dizer que “o futuro de um povo se encontra inscrito na própria história do seu passado“.
Gustave Thibon, exímio cultor da filosofia da Natureza, escreveu a propósito da Tradição, estas palavras repletas de beleza:
Quando choro pelo rompimento de uma tradição é sobretudo no futuro que penso.
Quando vejo secar a raiz de uma planta, sinto pena principalmente pelas flores que não desabrocharão amanhã.”

Jacinto Ferreira

in “Poder Local e Corpos Intermédios”, Lisboa, 1987, págs. 47-50, Edição do Autor. Os destaques gráficos, a imagem e a legenda são da responsabilidade da nossa Redacção.


Notas:
(1) “Discurso de Covadonga”, 1916
(2) “Cambio y Tradición”, 1985
(3) “La Família y el Município como bases de la organización política”, Madrid, 1971
(4) “La Justicia”, México, 1961



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