Arautos d'El-Rei | Deputado brasileiro “animaliza” dramaturgo grego
923
post-template-default,single,single-post,postid-923,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,vss_responsive_adv,qode-content-sidebar-responsive,qode-theme-ver-10.1.1,wpb-js-composer js-comp-ver-5.0.1,vc_responsive
Ésquilo

Deputado brasileiro “animaliza” dramaturgo grego

Do nosso correspondente Armando Alexandre dos Santos

Tive a curiosidade de assistir aos debates ocorridos na Câmara Federal, na sessão da comissão especial que estava analisando o parecer do relator deputado Jovair Arantes, a respeito da abertura do processo de impedimento da soi-disante “presidenta” Dilma Rousseff.

Bem entendido, somente acompanhei 30 ou 40 minutos da sessão, que durou mais de 10 horas e concluiu pela aprovação do relatório favorável ao impedimento. Foi o suficiente para ficar horrorizado com o baixo nível de comportamento de muitos dos parlamentares presentes, que mais pareciam adolescentes malcriados em sala de aula. Gritarias, berreiros, tentativas de interrupção de quem estava falando etc. etc., por parte de membros das duas posições conflitantes.

Outra coisa que me horrorizou foram os erros de português de muitos dos discursos. Sem dúvida, houve deputados que falaram perfeitamente, do ponto de vista da gramática e do estilo, exprimindo-se com clareza, elegância e correção. Foram poucos, bem poucos. Muitos, nem sabem pronunciar as palavras, falando, por exemplo, “corrupição”, “pissicologia” etc.; outros, sistematicamente, omitem os RR finais dos verbos do infinitivo, ou os SS dos plurais.

Preposições, então, são espalhadas à vontade, sem nenhuma preocupação com sua colocação correta, de acordo com a sintaxe da frase. “O Brasil, aonde nós vivemos…” disse um deputado, repetindo o mesmo erro de colocar a preposição “a” antes do pronome relativo “onde”, que vários de seus colegas já haviam cometido. Por falar em pronomes relativos, um deles que parece banido do linguajar de muitos parlamentares é “cujo”, que já não mais se usa; hoje, não se diz “a lei, cujo artigo primeiro…”, mas diz-se “a lei que o artigo primeiro dela”. E assim por diante.

esquiloMas o que mais me chamou a atenção foi a fala de um jovem deputado (cujo nome, de propósito não cito aqui, para não constrangê-lo), que leu um discursinho erudito e bem escrito, obviamente produzido por algum “ghostwriter”, o qual, num arroubo de classicismo, citava pomposamente “o grande dramaturgo grego Ésquilo”. Só que o orador, empolgado pela própria fala, não reparou no acento agudo, que torna o nome proparoxítono. E leu, alto e bom som, “Esquilo”, com acento na penúltima sílaba, transformando o autor de “Prometeu acorrentado” no simpático animalzinho devorador de nozes que, segundo a Wikipédia, pertence “a uma grande família de mamíferos roedores de pequeno e médio porte conhecida como Sciuridae, no Brasil também conhecidos como serelepe, caxinguelê, caxinxe, quatimirim, quatipuru, agutipuru ou acutipuru.

O mais incrível é que essa barbaridade foi ouvida com absoluta indiferença pelos presentes, parecendo nem se terem dado conta da gigantesca bobagem que acabava de ser proferida. Fiquei esperando que algum deputado, de posição contrária à do orador, o corrigisse ou contraditasse, expondo-o ao ridículo. Seria facílimo. O clima estava acirrado, a discussão estava acesa e, por muito menos, saíam a todo o momento bate-bocas na sala. Mas ninguém falou nada… provavelmente porque ninguém percebeu o erro!

Pobre Ésquilo! Pobre cultura clássica! Pobre Brasil!

O fato é bem indicativo do baixíssimo nível do parlamento brasileiro que era, no Império, um cenáculo de alta cultura; era também uma escola de estadistas, e foi transformado, depois do Quinze de Novembro, numa verdadeira “praça de negócios”. Essa expressão, para designar o Legislativo republicano, foi usada pelo insuspeito Ruy Barbosa em 1919, quando, em campanha presidencial, discursava em Juiz de Fora.


Armando Alexandre dos Santos é jornalista profissional e historiador, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Nota da Redacção: Este artigo foi escrito em genuíno e correcto português do Brasil, não devendo, portanto, confundir-se com uma aplicação das “regras” do chamado “Acordo Ortográfico”, o qual é categoricamente rejeitado pela nossa Redacção. (Os destaques gráficos são da nossa responsabillidade).