Arautos d'El-Rei | Camões, personagem de transição
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Nau de Vasco da Gama

Camões, personagem de transição

Do nosso correspondente Armando Alexandre dos Santos *

Camões viveu numa época de transição, já em pleno Renascimento, mas num ambiente em que ainda estavam vivas, ou pelo menos ainda sobreviviam muitas características psicológicas e culturais da Idade Média. O renascentismo português (como também o espanhol) era, a esse título, bastante sui generis, diferenciando-se do francês e, sobretudo do italiano. Camões era um humanista e mostrava-se muito naturalista, mas sua obra está repleta de traços esparsos, mas muito significativos, de espírito autenticamente medieval, tanto em seus aspectos guerreiros, heroicos e, poderíamos dizer um tanto impropriamente, feudais, quanto nos teológicos e místicos.
A nota cruzadística e missionária, por exemplo, característica constante da história de Portugal, especialmente no período da Dinastia de Aviz, está sempre presente em Camões. Em numerosas passagens de Os Lusíadas está bem consignada a finalidade religiosa da epopéia marítima.

A nau de Vasco da Gama, acompanhada e observada pelos deuses no “Olimpo luminoso”

A religiosidade católica, ortodoxa e até inserida no contexto da Contra-Reforma tridentina, está presente e difusa no poema, sem embargo da forte presença mitológica, que não impediu sua aprovação pelo censor eclesiástico do Santo Ofício, que interpretou aquilo como sendo apenas um recurso estilístico, e não uma profissão de fé pagã. O Prof. Gladstone Chaves de Mello publicou no Rio de Janeiro, há muitos anos, um estudo pequeno e conciso, mas muito rico, sobre a ortodoxia doutrinária de Camões, e sobre seu profundo conhecimento teológico, deixado entrever no poema. E o Prof. Nunes Carreira escreveu, em Portugal, outro estudo, no qual apontava os profundos conhecimentos bíblicos demonstrados pelo poeta.

O lado renascentista, humanista e, enquanto tal oposto ao teocentrismo medieval está, também, presente em todo o poema. Nesse sentido, há que registrar, no poema, duas passagens eróticas muito vivas, uma delas descrevendo o corpo da deusa Vênus com pormenores anatômicos que, mesmo em nossos dias, impressionarim e chegariam a chocar muitos leitores; e outra com o extenso episódio da Ilha dos Amores, no canto IX (52-89), com descrições tão realísticas que, nas edições escolares antigas, esse episódio era censurado “ad usum Delphini”.

Essa coexistência de influências conflitantes e até frontalmente contraditórias, à maneira de vetores, é muito sensível em todo o poema, e mereceria ser mais esmiuçada aqui, se tivéssemos tempo para isso.

Historicamente, o poeta também viveu numa época que foi de transição a outro título. Ele nasceu bem no início do reinado de D. João III, quando ainda estava muito vivo o triunfalismo dos tempos de seu pai, D. Manuel, o Venturoso (falecido em 1521). Pertenceu a uma geração que cresceu embalada pelos sonhos de glória, quando Portugal era uma potência de primeiríssima grandeza, depois de colhidos os frutos de um século de pacientes e laboriosas tentativas de domínio dos mares. El-Rei Dom SebastiãoSua geração assistiu, durante o longo reinado de D. João III, a um lento declínio desses sonhos de grandeza com a nação cada vez mais se ressentindo do esforço hercúleo que fizera e continuava fazendo. O jovem Rei D. Sebastião representou, para essa geração, a esperança de uma indispensável renovação, da qual Portugal teria saído ainda maior e mais fortalecido, não fosse o desastre de Alcácer-Quibir. A mesma geração assistiu à débâcle e ao “finis patriae”, ao triste ocaso de um grande ideal. Foi, pois, a geração que presenciou a grande transição, da glória mais elevada para a humilhação mais completa.

El-Rei D. Sebastião, o soberano a quem Luís de Camões dedicou Os Lusíadas


* ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador, jornalista profissional e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Nota da Redacção: Este artigo foi escrito em genuíno e correcto português do Brasil, não devendo, portanto, confundir-se com uma aplicação das “regras” do chamado “Acordo Ortográfico”, o qual é categoricamente rejeitado pela nossa Redacção.

Fonte: PAZ – Blogue Luso-Brasileiro