Arautos d'El-Rei | A Ordem da Torre e Espada
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Ordem da Torre e Espada

A Ordem da Torre e Espada

Do nosso correspondente Armando Alexandre dos Santos

Falerística é o nome que se dá ao estudo científico das ordens honoríficas, condecorações e medalhas de qualquer natureza, civis, militares ou eclesiásticas. É palavra pouco frequente em nosso vocabulário e quase desconhecida no Brasil, embora entre nós haja grandes estudiosos do assunto, como meus amigos Wallace de Oliveira Guirelli e Lauro Ribeiro Escobar, ambos do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. No Rio de Janeiro, até há poucos anos vivia um grande sábio, profundo conhecedor de Falerística, meu saudoso amigo Rui Vieira da Cunha.

Na Europa, realiza-se periodicamente um Encontro Europeu de Sociedades Falerísticas, cada vez num país diferente. Em Portugal, existe uma  Academia Falerística, que reúne numerosos especialistas dessa ciência e edita um boletim intitulado “Pro Phalaris”, além de uma coleção de monografias autônomas, os “Cadernos de Falerística”. Um dos seus membros mais ativos é o Dr. José Vicente de Bragança, ao qual fui apresentado por nosso comum amigo D. Marcus de Noronha da Costa, da Academia Portuguesa de História e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

O Dr. José Vicente de Bragança, que possui o título de Conde de Arnoso e é sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, foi Secretário-geral da Presidência da República e da Chancelaria das Ordens Portuguesas. Ele é autoridade internacional em Falerística, participando com frequência de congressos internacionais dessa especialidade e tem muitas publicações sobre a matéria.

Nos últimos meses, o Dr. Bragança me vem obsequiando com diversas publicações de sua lavra, sempre escritas e editadas primorosamente, com grande precisão científica e notável seleção iconográfica. A iconografia, no caso, não é elemento secundário e puramente decorativo, mas é essencial. Isso porque, nas pesquisas de natureza falerística, muitas vezes são utilizados retratos antigos que reproduzem condecorações que já não mais existem ou, quando existem, são de acesso muito difícil. Os recursos modernos da fotografia digitalizada em alta resolução, com ampliações muito facilitadas, permitem que um retrato de museu, fotografado num país, seja reproduzido comodamente no computador de um falerista de outro país, que consegue ampliar bastante um detalhe do quadro, podendo examinar até nos seus pormenores uma condecoração que figura no peito de um retratado.

A leitura de cada um dos trabalhos do Dr. Bragança é instrutiva. Abre nossos olhos para realidades que vão muito além do campo visual do pesquisador comum e, mesmo, do historiador. Cada pormenor, cada minúcia, tem um significado, permitindo que o falerista dele deduza uma série de consequências que lhe permitem compor uma visão de conjunto. Por vezes, intrincados problemas diplomáticos ou políticos têm relação com pormenores aparentemente insignificantes de uma medalha conferida a um chefe de estado estrangeiro.

O último livro que recebi, do Dr. Bragança, intitula-se “El-Rei D. João VI e a Ordem da Torre e Espada (1808-1826)”. Foi editado em Lisboa, em 2011, num belo volume de 142 páginas, com texto bilingue em português e inglês.

A Ordem da Torre e Espada foi instituída pelo Príncipe-Regente D. João, futuro D. João VI, em maio de 1808, logo que chegou ao Rio de Janeiro, depois de ter atravessado o Atlântico e ter permanecido algumas semanas na Bahia. Desejando condecorar oficiais dos quatro navios de guerra ingleses que haviam acompanhado a viagem da Corte ao Brasil e não podendo lhes conferir as tradicionais condecorações militares portuguesas – das Ordens de Cristo, Avis e Santiago da Espada – por não serem católicos os referidos oficiais, decidiu D. João criar uma ordem nova, puramente civil e sem o caráter religioso inerente às antigas Ordens militares.

A nova Ordem pretendia restabelecer a lendária Ordem da Espada, que alguns autores afirmavam ter sido criada em 1459, pelo Rei D. Afonso V, para celebrar a conquista da praça-forte africana de Alcácer-Seguer.

O livro do Dr. Bragança é extremamente minucioso, mas consegue sê-lo sem cansar o leitor. O autor sabe, passo a passo, situar nos contornos gerais da História episódios saborosos da “petite histoire”, de modo que a leitura é sempre prazerosa e instrutiva. E sabe, sobretudo, ser um especialista extremamente erudito sem perder de vista os grandes panoramas que, quase sempre, são esquecidos pelos especialistas de qualquer área.

Aos interessados, recomendo que busquem o site www.acd-faleristica.com .

Armando Alexandre dos SantosARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é historiador, jornalista profissional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e ex-director da Revista da Academia Piracicabana de Letras.

Nota da Redacção: Este artigo foi escrito em genuíno e correcto português do Brasil, não devendo, portanto, confundir-se com uma aplicação das “regras” do chamado “Acordo Ortográfico”, o qual é categoricamente rejeitado pela nossa Redacção.

Fonte: PAZ – Blogue Luso-Brasileiro