Arautos d'El-Rei | Sermão do Desacordo aos Deputados
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NÃO ao Acordo Ortográfico

Sermão do Desacordo aos Deputados

Rui Miguel Duarte*

Apelo aos Deputados para desvincular Portugal do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90), na apreciação da Petição N.º 259/XII/2 que terá lugar no dia 20 de Dezembro, na Assembleia da República:

[…] Não façais, por má-fé, o que fizestes em 2008 por desconhecimento, ao ignorardes olimpicamente uma petição de 110.000 pessoas e todos os pareceres de especialistas, à excepção de um, do prof. Malaca Casteleiro, parte interessada na matéria. Informai-vos junto dos colegas que a têm acompanhado. Dai-vos à pena de ouvir as gravações (sobretudo a da audiência aos professores brasileiros) e lede os documentos.

Testemunhai os efeitos perversos da abertura dessa caixa de Pandora que foi a ratificação do 2.º Protocolo Modificativo do AO90 e da RCM 8/2011. Verificai que, batendo leve levemente, entraram nas nossas vidas os contatos e os fatos, além dos patos (por pactos), impatos (por impactos), compatos (por compactos), adetos (por adeptos), recessões (de receções, por recepções), etc.. Até no Diário da República, na escrita de professores que exigem correção aos alunos não sendo eles próprios corretos nem correctos.
Conferi que entre os efeitos perversos se contam a influência no domínio de outras línguas, em formas como diretion, excetion, ation (em lugar das palavras inglesas direction, exception, action). Tudo isto está amplamente documentado e tem livre curso.
Confrontai os vários dicionários, vocabulários, correctores e conversores ortográficos; estes, embora alegadamente obedientes ao AO90, não raro discrepam entre si e o violam, deixando o mais sincero e dogmático adepto do dito no incerto fado de não saber escrever em “acordês” sem o violar. Percebei de vez que, com o recuo pré-anunciado do Brasil, com a rejeição de Angola e Moçambique e a indiferença entre os demais países, Portugal está “orgulhosamente só” com o seu “acordês”.

Lede, ouvi e entendei. Tomai a decisão óbvia: a desvinculação de Portugal do penoso 2.º Protocolo Modificativo ao AO90 ou, no mínimo, a suspensão imediata do mesmo. Não vos deis às penas de fugir aos vossos deveres virando as costas à maioria dos cidadãos, que estes deixaram se de dar à pena da indulgência. Basta com a ignomínia de não-leituras, leituras parciais e tresleituras! É A HORA.

*Investigador do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa

Fonte: Público, 17/12/2013