Arautos d'El-Rei | 25 de Abril: 41 anos de uma ignomínia silenciada até hoje…
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Portugal Ultramarino

25 de Abril: 41 anos de uma ignomínia silenciada até hoje…

O abandono das nossas Províncias Ultramarinas, após a revolução de 25 de Abril de 1974, não foi apenas uma das mais desastrosas derrotas da nossa História. Para além de termos perdido a prosperidade e o espírito da grande unidade lusíada, cometemos o crime de deixar morrer centenas de milhar de compatriotas e de deixar outros milhões deles à mercê dos regimes corruptos a quem traiçoeiramente entregámos esses territórios de Além-Mar.
Dessa ignomínia quase ninguém fala até hoje, por isso, achámos oportuno transcrever aqui algumas palavras do Vice-Almirante Pereira Crespo, publicadas no seu livro “Por que perdemos a Guerra”:

“Em 1961, quando, em Angola, grupos armados puseram em causa a soberania portuguesa, tivemos de responder com uma guerra defensiva que depois se estendeu à Guiné e a Moçam­bique.
Essa guerra não resultou do capricho de um chefe político, da ideologia de um regime ou de uma opção baseada em discutível análise de conjuntura. Obedeceu a uma constante da nossa História, que sempre nos conduziu a pegar em armas para defender os territórios de além-mar. No último século, já assim tínhamos procedido por duas vezes: nos derradeiros anos da Monarquia, quando tivemos de manter prolongadas e trabalhosas operações militares no continente africano; durante a Primeira República, quando entrámos na Guerra Mundial de 1914-1918.
Em 1974, depois da revolução de Abril, perdemos essa guerra, quando entregámos os territórios ultramarinos e os milhões de portugueses que neles viviam, aos grupos armados que nos combatiam, ou seja, ao inimigo.
“Pelas consequências futuras e pelos resultados imediatos, a derrota que sofremos foi das mais desastrosas da nossa His­tória.
Para sempre ficou desfeita a grande Pátria Portuguesa, pluricontinental e multirracial, essencialmente marítima, domi­nando o Atlântico e com interesses no Índico e no Pacífico, ponto de encontro de vários Continentes e de culturas diferentes, valorizada, na Europa, pelas suas posições extra-europeias. E nessa Pátria teria sido possível, aproveitando a complementaridade das economias dos diversos territórios que a constituíam, assegurar, aos portugueses de todas as raças, um futuro cada vez mais próspero.
Não soubemos responder ao grande desafio que o Destino lançou aos portugueses, dando-lhes possibilidade de criar, na África Austral, sociedades multirraciais e multiculturais, enca­minhando, desta maneira, a convivência entre todos os povos do Mundo, para soluções mais justas e mais fraternas. A criação de tais sociedades teria sido a grande revolução lusíada, a revo­lução verdadeiramente original, que os portugueses poderiam ter realizado. E essa revolução justificaria todos os sacrifícios e deveria ter merecido o entusiasmo da nossa juventude.
Para sernpre deixaram de ser portugueses os territórios que eram a nossa escola de virilidade, de espírito de sacrifício, de desprezo pelas questões mesquinhas e pelos pigmeus ern carácter, de resistência aos climas duros, aos rios impetuosos, às florestas impenetráveis, às montanhas inacessíveis, aos pântanos hostis, aos grandes percursos.
O Sonho de uma grande Comunidade Lusíada, em que o Brasil seria incluído, tambérn ficou desfeito. E também desa­pareceu a Missão Nacional que, durante séculos, unira todos os portugueses, qualquer que fosse a sua raça, a sua religião ou a sua ideologia.
“A curto prazo, a derrota saldou-se por dezenas de milhares de mortos, por centenas de milhares de refugiados, por dezenas de milhares de soldados negros que, tendo lutado à sombra da Bandeira Portuguesa, foram entregues ao inimigo; pelo abandono de milhões de homens e de mulheres de todas as raças e de todos os credos, que também eram portugueses; pela perda do esforço das gerações que nos antecederam; pela destruição das economias de vastos e ricos territórios.
Durante muitos anos, os portugueses interrogar-se-ão sobre as causas da grande catástrofe que, tão rápida e inexplicavelmente, desabou sobre a sua Pátria.”

in “Por que perdemos a Guerra”, Manuel Pereira Crespo (Vice-Almirante), Editora Abril, 1977, págs. 17-19. Os destaques gráficos são da nossa responsabilidade.