Arautos d'El-Rei | Realeza e Santidade: Eis o nosso Ideal!
71
post-template-default,single,single-post,postid-71,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,vss_responsive_adv,qode-content-sidebar-responsive,qode-theme-ver-10.1.1,wpb-js-composer js-comp-ver-5.0.1,vc_responsive

Realeza e Santidade: Eis o nosso Ideal!

O Triunfo de Santa Isabel Medianeira da Paz e Mãe da Pátria

A 4 de Julho de 1336, uma quinta-feira, pela madrugada, a Rainha Santa Isabel declarou que desejava receber os últimos sacramentos. Mandou então chamar um dos seus confessores antes da aurora daquele dia, confessou-se e em seguida ouviu Missa, que foi celebrada no seu próprio quarto. Ao chegar o momento da co munhão, ficou de pé, caminhou até ao altar e aí recebeu o Santíssimo Sacramento com grande devoção e piedade. Nenhum daqueles que esta vam presentes conseguiu conter as lágrimas… Na mais viva comoção recebeu o viático aquela Rainha exemplar, que tinha reinado por mais de meio século em Portugal.

 

Na tarde deste mesmo dia sentiu faltarem-lhe as forças. Voltando o seu pensamento para a Virgem Santíssima, começou a rezar. Com a voz bastante sumida recitou o símbolo da nossa fé: Creio em Deus Pai todo-poderoso. Também se lhe ouviu rezar o Pai-nosso e outras orações, que foram ditas com a voz cada vez mais suave, até que finalmente deixou de se ouvir. Os olhos fecharam-se e a Rainha exalou um último suspiro. Entregou a sua alma a Deus – o Rei dos reis – e recebeu a coroa da vida eterna em troca da coroa terrena que durante tantos anos soubera honrar e adornar com as suas virtudes. Virtudes que todo o Portugal sabia terem sido praticadas em grau heróico.

O caminho para Coimbra

Tendo expirado ao final do dia, em Estremoz, de imediato se reuniram os Bispos que acompanhavam a corte e deram início aos sufrágios pela alma da Rainha. Entretanto, discutia-se o local onde deveria ser sepultada. Alguns suge riam que fosse na Igreja dos Franciscanos de Estremoz, outros propunham a Catedral de Évora. Contudo, o Rei D. Afonso mandou ler o testamento de sua mãe e soube-se que fora seu desejo expresso ser sepultada na Igreja do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Ordenou então El-Rei, contra a opinião de muitos, que se preparasse tudo para a trasladação.

A ordem não foi bem recebida, pois muitos julgavam que o transporte do corpo da Rainha, sob o sol abrasador de Julho, resultaria na sua decomposição. Mas D. Afonso decidiu cumprir o desejo expresso de sua mãe e o cortejo fúnebre partiu no dia 5 de Julho. Com o calor, depois de alguns dias, o ataúde abriu fendas, e por elas escorreu um líquido, que logo foi tido como prova da decomposição do corpo.

Mas houve então uma grande surpresa, afi nal o líquido exalava um aroma suavíssimo e perfumado. Foram sete dias de viagem e a chegada a Coimbra foi comovente. Todos choravam a sua Benfeitora. Foi velada na Igreja de Santa Clara e o seu túmulo encerrado na sexta-feira, 12 de Julho do ano do senhor de 1336, só voltando a ser aberto 276 anos depois, no ano de 1612, por ordem do Papa, para ser visitado pelos juízes apostólicos na causa da canonização. Nessa altura o corpo foi en contrado incorrupto, estado que conserva até hoje, 668 anos volvidos da subida ao Céu deste modelo perene que foi para os Portugue ses esta Rainha Santa Isabel.

Modelo de dama cristã

Dois princípios fundamentais definiam a fisionomia da Rainha Santa:

1. Para encarnar o modelo que uma Rainha deve ser, ela estava disposta a todos os sacrifícios a favor do seu povo e favoreceu a defe sa da Fé e da Cristandade, para que a virtude constituísse a regra na vida dos homens.

2. Também deveria, com toda a sua Família,dar, em tudo, um bom exemplo – ou melhor, um exemplo óptimo – aos súbditos de todas as classes sociais que, por sua vez, deveriam viver em harmonia. Este exemplo manifestava-se na virtude, na cultura, no trato social exímio, no bom gosto, na decoração dos am bientes, nos festejos, etc. Em suma, o seu exemplo impulsionava todo o corpo social com o objectivo de que todas as classes se aperfeiçoassem em todos os aspectos, vivendo e praticando a virtude.

Estes princípios tinham um reflexo prático admirável. Durante aquele período da História, a Idade Média, época de Fé em que Deus era o centro de tudo e os homens procuravam viver em harmonia neste Vale de Lágrimas, a Rainha Santa conseguiu, no nosso País, aplicar, com autenticidade de convicções e sentimento religioso, o lema que muitos séculos depois o grande Papa Pio X fez seu: Tudo instaurar em Cristo!

Nesse período da História da Europa tivemos diversos exemplos de Reis e Rainhas Santos: em França São Luiz, em Espanha São Fernando, na Hungria Santa Isabel (tia da nossa Santa Isabel), em Inglaterra Santo Eduardo e tantos outros. Uma sociedade que, no topo da hierarquia social, apresenta tais modelos de perfeição só pode ser louvável. E são estes os modelos desejáveis para todas as épocas. Além de que, a dama cristã é um modelo possível em todos os tempos, assim também como o cavaleiro cristão.

É bem verdade que a lamentável laicização das sociedades contemporâneas interfere negativamente na formação da ideia destes arquétipos, mas não deixa de ser também verdade que estes qualificativos continuam a designar a excelência do padrão humano e que a virtude e a honra ainda vivem, embora não constituam, na actualidade, os temas mais difundidos pelos meios de comunicação social.

Um traço de alma fundamental

São conhecidos na História muitos Santos, de origem nobre, que abandonaram o mundo e se dedicaram ao estado religioso (como exemplos poderíamos lembrar São Bernardo, Santa Beatriz da Silva e Santo António) mas outros Santos, também de origem nobre, conservaram-se nas grandezas desta terra. Desta forma realçaram, com o prestígio oriundo da sua condição sócio-política, tudo quanto existe de admirável nas virtudes cristãs. O seu grande exemplo moral era aproveitado não somente para a salvação das almas como também para a própria sociedade temporal. Tais Santos, já reverenciados pela sua elevada condição hierárquica, acabavam por ser amados pelas mul tidões devido à prática constante e exímia da caridade cristã.

Sem renunciar às honras terrenas a que fazia jus, a Rainha Santa Isabel destacou-se, em particular, pelo seu amor aos desvalidos e pela sua constante luta pela paz entre os cristãos. Este desvelo perpassou os séculos e ainda hoje a gratidão do povo se manifesta nas festas em homenagem à Rainha Santa. Recordamos aqui a frase do escritor francês Victor Hugo, que ao encontrar-se com São João Bosco exclamou: A única e verdadeira glória é a dos Santos!

Governar favorecendo a virtude

Governar não é somente legislar e organizar a economia. Diríamos mesmo que nem sequer o é principalmente. Para governar um País é essencial obter-se a admiração, a confiança e o afecto do povo. E é impossível alcançar um tal objectivo sem uma profunda consonância de princípios, comuns a governantes e governados. Não existe na História da humanidade exemplo de princípios eternos senão aqueles que nasceram após o Sacrifício do Calvário e que deram origem à Civilização Cristã. Da fidelidade a tais princípios nasceram e floresceram sociedades onde predominavam a virtude e o espírito de serviço, da sua rejeição parcial ou total irromperam sociedades individualistas onde, paulatinamente e até aos dias actuais, se foi assistindo ao seu abandono gradual e a uma tentativa de imposição igualmente gradual, de um ‘laicismo militante’, em boa medida fomentado pela maioria dos grandes meios de comunicação social.

Governar é, acima de tudo, orientar para o bem, estimular as virtudes e coordenar as forças vivas da nação num projecto comum, na consecução do objectivo nacional. Cada Povo tem o seu objectivo, profundamente enformado pela sua própria vocação como Povo. Os Reis devem e podem levar isto a cabo na medida em que forem fiéis aos planos da Providência.

Um exemplo que nos surge de imediato é o daquele País pequenino que, imbuído do desejo de dar Novos Mundos ao Mundo e Evangelizar acabou por transformar a História da humanidade. Foi a Fidelidade dos nossos an tepassados que ampliou as fronteiras da Fé e da Civilização pelos quatro cantos do mundo. E nunca, na nossa História, o Povo Português viveu mais feliz. Viveu de grandes ideais orientado, estimulado e coordenado pelos des cendentes da Rainha Santa Isabel.

O modelo para o futuro

Enquanto Portugal se debate, juntamente com toda a Europa Cristã, numa crise profunda e a vários níveis, mas essencialmente uma crise de fundo moral e de valores, eis que permanece de pé e sempre acessível o modelo oferecido pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

A Rainha Santa Isabel representa um padrão de perfeição de sempre, passível de ser segui do. Seguido pelas elites e pela nobreza, seguido pelos nossos governantes, seguido, enfim, por todo o nosso Povo, que por uma misteriosa e bela predilecção da Providência vem sendo protegido ao longo dos séculos.

O nosso País, escolhido pela Providência para a revelação da Mensagem de maior actualidade para o Mundo moderno, a Mensagem de Fátima, tem com certeza uma missão única nos dias de hoje.

A crise moral, que penetrou todos os campos do agir humano, transtornou a nossa sociedade. Vive-se numa grande desilusão e numa tristeza profunda perante a actual situação. Numa altura em que sectores significativos das sociedades civis dos Estados-membros da Europa comunitária assistem atónitos à promulgação de leis contrárias à Lei Eterna, que favorecem, em nome da “liberdade” absoluta, hábitos e costumes avessos aos costumes e tradições cristãs, resta-nos sempre a referência ao passado glorioso de Portugal, aos nossos vultos históricos e, sobretudo, à santidade que foi sempre o nosso guia fiável para vencer os desafios que se nos apresentaram.

Nós, os Arautos d’El-Rei pedimos à Rainha Santa que continue a olhar para o seu Reino e que interceda junto de Nossa Senhora, coroada Rainha em 1646 por Dom João IV, para que a fidelidade à vocação de Portugal esteja sempre presente naqueles que lutam pela defesa da Civilização Cristã e que têm como ideal uma sociedade sacral, na qual triunfe o Imaculado Coração de Maria.

Coimbra, 4 de Julho Memória Litúrgica da Rainha Santa Isabel