Arautos d'El-Rei | Maomé Renasce
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Maomé Renasce

Mal tinha ainda começado a fase da era moderna do petróleo, que colocou o Ocidente cristão à mercê do poderio islâmico, e já o autor deste artigo alertava para o perigo de um renascer de Maomé e da sua religião. Tal perigo, embora já drasticamente confirmado por gravíssimos acontecimentos, sobretudo a partir da matança de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos, parece não ter ainda sensibilizado a opinião pública ocidental, globalmente manipulada por uma liderança de esquerda que já nem se preocupa em disfarçar a sua simpatia pela causa terrorista. Se a situação já era grave em 1947, quando o autor escreveu o artigo, o que dizer então agora, nesta época de crise em que a instabilidade no elevadíssimo preço dos combustíveis parece anunciar o fim da era do petróleo e dos nossos modelos de economia e sociedade? E em vista da sempre possível entrada do Irão nos constantes conflitos do Médio Oriente, “com armas que vão surpreender o inimigo”, que mais faltará para se poder afirmar que realmente renasceu a causa de Maomé e que as suas hostes se preparam para o assalto final ao Ocidente?

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Plinio Corrêa de Oliveira*

Quando estudamos a triste história da queda do Império Romano, custa-nos compreender a curteza de vistas, a displicência e a tranquilidade dos romanos diante do perigo que se avolumava. Roma sofria, a agravar-lhe os outros males, de um inveterado hábito de vencer. A seus pés estavam as mais gloriosas nações da antiguidade, o Egipto, a Grécia, toda a Ásia. A ferocidade dos celtas estava definitivamente abrandada. O Reno e o Danúbio constituíam para o Império uma esplêndida defesa natural. Como recear que os bárbaros, que vagueavam nas selvas virgens da Europa central, pudessem expor a risco sério tão imenso edifício político?

Habituados a esta visão, os romanos não tiveram flexibilidade de espírito para compreender a situação nova que aos poucos se ia criando. Os bárbaros transpuseram o Reno e começaram as suas invasões. Diante deles a resistência das legiões era fraca, indecisa, insuficiente. Mas os romanos continuaram a ignorar o perigo, obcecados de um lado pela sede absorvente dos prazeres e iludidos, de outro lado, pelo que se chamaria na detestável terminologia freudiana um “complexo” de superioridade. É o que explica a tranquilidade mortal em que se conservaram até ao fim.

Ainda mesmo que consideremos dentro deste conjunto o mistério da inércia romana, o quadro parece-nos singular e quiçá algum tanto forçado. Compreendê-lo-emos muito mais ao vivo, se considerarmos outro grande mistério que se passa diante dos nossos olhos, do qual somos de certo modo participantes: a grande inércia do Ocidente cristão diante da ressurreição da gentilidade afro-asiática. O tema é por demais vasto para ser tratado em bloco. Bastará, para que o compreendamos bem, que consideremos apenas um dos aspectos do fenómeno: a renovação do mundo muçulmano.

É um tema que o “Legionário”, já habituado a não ser compreendido, tem abordado com uma insistência que pareceu por vezes importuna. Mas a questão merece ser examinada mais uma vez, com uma extensão maior do que a das pequenas notas dos “Sete dias em Revista” nas quais a tratamos anteriormente.

Lembremos rapidamente alguns dados gerais do problema. Como se sabe, o mundo maometano abrange uma faixa territorial que começa na Índia, passa pela Arábia e Ásia Menor, atinge o Egipto e vai terminar no Oceano Atlântico. A zona de influência do Islão é imensa de todos os pontos de vista: território, população, riquezas naturais. Mas até há algum tempo atrás certos factores inutilizavam de modo quase completo todo este poderio. O vínculo que poderia unir os maometanos de todo o mundo seria, evidentemente, a religião do Profeta. Mas esta apresentava-se dividida, fraca e totalmente desprovida de homens notáveis na esfera do pensamento, do mando ou da acção. O maometanismo vegetava e isto parecia bastar perfeitamente ao zelo dos altos dignitários do Islão. O mesmo gosto pela estagnação e pela vida meramente vegetativa era um mal de que também estava atingida a vida económica e política dos povos maometanos da Ásia e da África. Nenhum homem de valor, nenhuma ideia nova, nenhum empreendimento verdadeiramente grande podia afirmar-se nesta atmosfera. As nações maometanas fechavam-se cada qual sobre si mesma, indiferentes a tudo que não fosse o deleite tranquilo e miúdo da vida quotidiana. Assim, vivia cada qual num mundo próprio, diversificada das outras pelas suas tradições históricas profundamente diversas, separadas todas pela sua recíproca indiferença, incapazes de compreender, desejar e realizar uma obra comum. Neste quadro religioso e político tão deprimido, o aproveitamento das riquezas naturais do mundo maometano, riquezas que consideradas em seu conjunto constituem um dos maiores potenciais do globo, era manifestamente impossível. Tudo, pois, não era senão ruína, desagregação e torpor.

Arrastava assim os seus dias o Oriente, enquanto o Ocidente chegava ao zénite da sua prosperidade. Desde a era vitoriana, uma atmosfera de juventude, de entusiasmo e de esperança soprava pela Europa e pela América. Os progressos da ciência haviam renovado os aspectos materiais da vida ocidental. As promessas da Revolução encontravam crédito e nos últimos anos do século XIX havia quem esperasse o século XX como a era de ouro da humanidade.

É claro que um ocidental colocado neste ambiente se capacitava a fundo da inércia e da impotência do Oriente. Falar-lhe na possibilidade da ressurreição do mundo maometano parecer-lhe-ia algo de tão irrealizável e anacrónico, quanto o retorno aos trajes, aos métodos de guerra e ao mapa político da Idade Média.

Desta ilusão, vivemos ainda hoje. E, como os romanos, fiados no Mediterrâneo que nos separa do mundo islâmico, não percebemos que fenómenos novos e extremamente graves se passam nas terras do Corão.

É difícil abranger numa discriminação sintética fenómenos tão vastos e ricos como este. Mas de um modo muito geral pode-se dizer que, depois da grande guerra, todo o Oriente – e entendemos esta expressão num sentido muito lato abrangendo na sua totalidade as zonas de civilização não cristã da Ásia e da África – começou a passar por um fenómeno de reacção anti-Europa e muito pronunciado. Esta reacção comportava dois aspectos algum tanto contraditórios, mas ambos muito perigosos para o Ocidente. De um lado, as nações orientais começavam a sofrer com impaciência o jugo económico e militar do Ocidente, manifestando uma aspiração cada vez mais pronunciada pela soberania plena, pela formação de um potencial económico independente e de grandes exércitos próprios. Esta aspiração comportava, é claro, uma certa “ocidentalização”, ou seja a adaptação à Ásia da técnica militar, industrial e agrícola moderna, do sistema financeiro e bancário euro-americano, etc. De outro lado porém, este surto patriótico provocava um renouveau de entusiasmo pelas tradições nacionais, costumes nacionais, culto nacional, história nacional. É supérfluo acrescentar que o espectáculo degradante da corrupção e das divisões a que estava exposto o mundo ocidental concorria para estimular o ódio ao Ocidente. De onde a formação, em todo o Oriente, de novo interesse pelos velhos ídolos, de um “neo-paganismo” mil vezes mais combativo, resoluto e dinâmico do que o paganismo antigo. O Japão é bem um exemplo típico, ultra-típico talvez, de todo este processo que tentamos descrever. O grupo ideológico e político que o elevou à categoria de grande potência e que ambicionou para ele o domínio do mundo, foi precisamente um destes grupos neo-pagãos obstinadamente apegados aos velhos conceitos de divindade do Imperador.

Ora, um fenómeno mais lento, porém não menos vigoroso que o do Japão, deu-se em todo o mundo oriental. A Índia está na iminência de conquistar, em virtude deste fenómeno, a sua independência, o Egipto e a Pérsia ocupam hoje em dia uma situação avantajada, na vida internacional e progridem a passos rápidos. Bem antes disto, Mustafá Kemal renovou a Turquia. Todas estas nações, estas potências podemos dizer, se sentem orgulhosas do seu passado, das suas tradições, da sua cultura, e desejam conservá-las com afinco, ao mesmo tempo, mostram-se ufanas das suas riquezas naturais, das suas possibilidades políticas e militares e do progresso financeiro que estão alcançando. Dia a dia elas se enriquecem, constroem cidades dotadas de um aparelho governamental eficaz, de uma polícia bem adestrada, de universidades estritamente pagãs mas muito desenvolvidas, de escolas, hospitais, museus, tudo enfim que para nós significa de algum modo poder e progresso material. Nas suas arcas, o ouro vai-se acumulando. Ouro significa possibilidade de comprar armamento. E armamento significa prestígio mundial.

É interessante notar que o exemplo nazista impressionou fortemente o Oriente. Se um grande país como a Alemanha tem um governo que abandona o Cristianismo e não cora de voltar aos antigos ídolos, o que há de vergonhoso em que um chinês ou um árabe permaneçam nas suas religiões tradicionais?

Tudo isto transformou o mundo islâmico e determinou em todos os povos maometanos, da Índia ao Marrocos, um estremecimento que significa que o sono milenar acabou. O Paquistão – estado muçulmano-hindu em vésperas de independência – o Irão, Iraque, a Turquia, o Egipto são os pontos altos do movimento de ressurreição islâmica. Mas na Argélia, em Marrocos, na Tripolitânia, na Tunísia, a agitação também vai intensa. O nervo vital do islamismo revive em todos estes povos, fazendo renascer neles o senso da unidade, a noção dos interesses comuns, a preocupação da solidariedade e o gosto pela vitória.

Nada disto ficou no ar. A Liga árabe, uma confederação vastíssima de povos muçulmanos, une hoje todo o mundo maometano. É, às avessas, o que foi na Idade Média a Cristandade. A Liga Árabe age como um vasto bloco perante as nações não árabes e fomenta por todo o norte da África a insurreição. A evasão do grão mufti foi uma clara manifestação da força dessa Liga. A soltura de Abd-el-Krim é mais do que isto, uma afirmação do propósito deliberado em que está a Liga de intervir nos assuntos da África Setentrional, promovendo a independência da Argélia, Tunísia, Tripolitânia e Marrocos. É o que demonstramos nos “Sete Dias em Revista” do último número.

Será preciso ter muito talento, muita perspicácia, informações excepcionalmente boas, para perceber o que significa este perigo?

 

Fotos: Manifestação muçulmana em Londres, em 3 de Fevereiro de 2006, exibindo cartazes com ameaças sangrentas à Europa e ao Ocidente cristão em geral: “Preparem-se para o verdadeiro holocausto“, “Europa, aprende algumas das lições do 11 de Setembro

 

In “Legionário” (Órgão Oficioso da Arquidiocese de São Paulo – Brasil), n.° 775, 15 de Junho de 1947.

Os destaques gráficos são da Redacção de Arautos d’El-Rei.

* Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995) foi Professor Catedrático de História Moderna na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP).